Aquilo que não foi dito


Palavras, às vezes, demoram a serem ditas. Me refiro à palavras que demonstram um sentimento, seja de alegria ou seja de angústia.

Por muitos anos eu guardei palavras que deveriam ter sido ditas frente a frente, na sinceridade de um olhar, sem a interferência de ninguém que pudesse subestimá-las ou manipulá-las. Eu ainda não consigo enxergar nessas palavras o ódio reprimido, o desprezo agregado, ou sabe-se lá quais outros descréditos que elas pudessem representar.
A verdade, é que nas oportunidades em que elas puderam ser ditas, o silêncio se fez mais forte. Pobre daqueles que, feito eu, se entregam ao medo, à insegurança e a falta de atitude.

No meu desejo contido, em algum lugar no tempo, eu disse essas palavras no momento exato e da maneira correta.
E sendo ditas, elas tornaram o fardo mais leve; acalmaram um coração.
Talvez por terem transpassado a angústia contida, talvez pelo simples fato de serem calmamente compreendidas.
Assim funcionam nossos desejos, que embora magníficos, ainda sejam simples...desejos.

A realidade é diferente. É amarga, é cruel. Os desejos nos beijam a face; a realidade nos vira a cara e nos ignora ainda que estejamos receptíveis frente a nossa casa.
Mas um dia tudo chega ao fim. Essa á nossa sina. E então, lá na frente, desprendidos de nós mesmos, de nossos egos e de nossas certezas - ou das certezas que nos fizeram crer - estaremos fracos, arrependidos e prestes a ouvir e dizer aquilo que não foi dito nem ouvido.
E, se numa ausência da ironia do destino, pudermos ter esse pequeno momento juntos, acredito que nossos desejos finais serão os de que não seja tarde demais. Porque sempre é tarde. Porque preferimos acreditar num tempo certo, em que tudo vai ser perfeito. Um tempo que não chega; que não existe. Não sem que nos ouçamos uns aos outros; não sem que saibamos entender o sentimento do próximo, que por vezes é muito mais próximo do que de costume.

Ao escrever minhas palavras contidas, busquei dar um passo a frente e dizer aquilo que muito se quis, mas nunca foi dito. E tendo feito isso, na humildade dos meus desejos, eu só busquei ser compreendido, e pelo menos ouvir algo como "eu imagino o que você passou e me compadeço disso". Não esperava ser julgado, nem tão pouco ter uma dor a mais me retraindo.

À todos aqueles que tem a sorte e a alegria de uma consciência tranquila, além da sabedoria para compreender e sentir um sofrimento reprimido: Feliz dia dos pais!

2 comentários:

Waleska Frota Catunda. disse...

Olá Ricardo?
Esse seu livro é um romance?
abç.Waleska.

Ricardo Adorno disse...

Olá, Waleska!
Desculpe a demora na resposta, mas os relatos do blog são experiências minhas e palavras que uso para transcrever meus sentimentos. Embora pareça um drama, não é um livro...hehehe...obrigado pela visita!